domingo, 28 de junho de 2026

 

“Começo este diário para aprender a me enxergar de novo.”

Se isso ainda me for possível

 

Existe em mim um universo inteiro que não consigo conter.
Hora sou uma coisa, hora sou outra, e na maior parte do tempo… não sou nada.
Sou indefinida. Nunca havia me sentido assim: uniforme e vazia.
Carrego uma imensidão dentro do peito, buracos sem fundo, escuridão.
Abismos que não se pode conter.
Explosões silenciosas, sem tempo, sem lugar.

Pergunto-me se o vazio constrói algo,
se dele pode nascer alguma forma de vida
ou se eu mesma me tornei esse vazio.

Não tenho imagem ... e quando tento olhar para mim, sinto vergonha do que vejo, do que fui e do que me tornei.
O que fizeram de mim?
Ou o que fiz comigo?
Não sei.
Não sei para onde olhar,
não sei quais palavras dizer,
nem quais pensamentos pensar.

Sinto dor.
Dores que atravessam a carne,
como se meu corpo gritasse que ainda estou viva.
Até os pelos dos meus braços doem,
e eu respiro dor.

Um dia imaginei que respiraria maresia.
Hoje, o que sinto nas narinas é o odor da minha própria existência apodrecida, caminhando entre paredes que já não reconheço.
Sempre me perguntei se estava morta
e este era o meu túmulo.
Agora tenho certeza:
faz tempo que morri.
E cada pedaço de mim que se desprende
dói como se fosse a perda de algo que já não tinha vida,
mas ainda assim me pertence.

Vago pelo vazio da minha alma.
Procuro por mim,
mas só encontro mais vazio e mais escuridão.
Gostaria de me perguntar:
“Como cheguei aqui?”
Mas não posso,
porque me perdi de mim mesma,
e já não existe ninguém para me responder.

Quem eu fui já não existe.
Quem eu sou não sei.
Resta apenas a sensação constante de podridão e morte dentro de mim.
E assim vou vivendo... ou fingindo viver ...,
catando pedaços do que sobrou de mim pelo caminho.
Não há cores, não há sorrisos,
não há som.
A música que um dia me habitou
agora silencia.

Sinto muito por mim.
Gostaria de pedir perdão à menina sonhadora que acreditava na beleza da vida.
Mas o tempo do perdão passou,
e nada mais restou.

O amor morreu,
e com ele, morri também.
E morta, sigo caminhando entre os vivos,
carregando dentro de mim a imensidão dos vazios,
o silêncio da ausência,
a sombra da vida que um dia existiu
e se desfez.

Juliana C



Sol de Primavera 
Meu sol de primavera... 
Luz que irradia afeto... 
Como esquecer da luz que entra em minha janela 
E aquece tudo que toca? 
Como esquecer você? 
Como esquecer você? 
 Impossível... 
Você era dúbia ... 
Não por ser incerta ou duvidosa, 
 Mas porque sobre você existem várias interpretações, 
 Um sol de várias faces, 
 Mas eu amava todas elas. 
Era doce, meiga e gentil, 
A doçura em pessoa, 
Mas podia ser amarga também 
E grossa quando não estava bem. 
Era cuidadosa, afetuosa, 
Cuidava daqueles à sua volta, 
Mas por muitas vezes exigia cuidados e afeto também. 
Era prevenida, cautelosa, 
 Mas também era imprudente. 
Era a brisa leve, 
Mas também era a ventania. 
Era o mar calmo e, ao mesmo tempo, 
Conseguia ser a tempestade em alto-mar. 
Era o dia de sol e a chuva brava de verão. 
Era o céu aberto e o céu com trovões. 
Era a alegria e o choro também. 
Era o dia e a noite. Era muitas em uma só, 
 E quem não é, não é mesmo? 
Só os ditos normais escondem essa dubiedade, 
Você não, você nunca escondeu, 
Era muitas e sabia disso, 
 E em todas as faces havia intensidade, amor, afeto, loucura, paixão, 
Havia a Larissa. 
Você era grande, grande demais pra esse mundo pequeno, você viveu intensamente tudo que se propôs a viver. 
Como Thoreau: “Fui para os bosques viver de livre vontade. 
Para sugar todo o tutano da vida. 
Para aniquilar tudo que não era vida e, para quando morrer, não descobrir que não vivi.”
Você viveu e como viveu, Realizou coisas que nunca imaginou realizar 
E enfrentou a luta pela vida de uma forma inimaginável, 
Com uma coragem invejável, 
Foi firme e forte como nunca havia sido ainda, foi grande. 
Não quero pensar que perdeu, Porque você foi grande, 
Mas sei que nós perdemos, Perdemos você. 
E acho que você iria rir disso, Você se foi  no dia da mentira, 
Um dia que você ligava e falava coisas absurdas 
E no fim ria e falava que era o dia da mentira 
E que era tudo brincadeira, 
E eu estou aqui esperando a sua ligação 
Pra falar que foi tudo brincadeira e que você ainda está aqui. 
Que vai voltar 
Mas não vai, não é Sol de primavera, luz que irradia, 
Que aquece, que ilumina Sorriso que toca como um afago no coração 
Como viver sem você nesse mundo? 
Como olhar a vida e as pessoas, as coisas acontecendo, 
E saber que você não está aqui? 
Pra quem eu vou ligar 
E falar as coisas e te chamar de “Coisa”
E ouvir você me chamar também? 
Hoje só o que existe é vazio 
E silêncio .... 
Onde habitava você, risadas e conversas, existe o silêncio do universo, 
Um silêncio que dói, 
Que fere sem dizer nada, 
Porque você não está mais aqui. 
Nos encontraremos em breve, 
Sol de primavera 
Por hora quero acreditar que você está aqui 
Nos dias de sol e nos dias de chuva, 
Nas tempestades e no arco-íris e em todos os dias, 
Junto a mim e àqueles que tanto te amam. 
E que você tanto amou. Para sempre, minha Coisa.
Te vejo em breve ...

Juliana C