quinta-feira, 29 de outubro de 2026

 

Um reflexão hipotética

Uma reflexão hipotética sobre o significado dos símbolos políticos e a importância da Constituição de 1988 para a democracia brasileira.

Na política, os símbolos podem comunicar ideias que nem sempre são expressas diretamente em palavras. Imagens, cores, bandeiras, uniformes e emblemas podem funcionar como referências históricas, reforçar identidades e aproximar determinados grupos de uma visão específica de país.

Mas o que acontece quando um símbolo de uma República antiga aparece em um documento no qual alguém reivindica uma autoridade que não recebeu das urnas?

Essa é a questão que proponho refletir neste texto. Não se trata de afirmar, sem provas, qual foi a intenção de quem escolheu o símbolo, mas de investigar os significados políticos que essa escolha pode assumir quando considerada em seu contexto.

A Constituição de 1988 estabelece, em seu artigo 1º, parágrafo único:

“Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição.”

Essa afirmação é um dos fundamentos da democracia brasileira. A legitimidade do poder político não decorre da vontade individual de um governante, de uma família política ou das Forças Armadas, mas do povo, por meio dos mecanismos previstos na Constituição.

Por isso, quando alguém reivindica uma autoridade que não recebeu pelo processo eleitoral, surge uma questão fundamental: de onde vem a legitimidade desse poder?

Um símbolo antigo, por si só, não comprova um projeto de ruptura política. Entretanto, quando aparece associado a uma reivindicação de autoridade, pode despertar questionamentos sobre a visão de Estado que se pretende representar. A escolha pode ser interpretada como uma referência ao passado e, dependendo do contexto, como uma maneira de sugerir outra concepção de organização política.

Para compreender essa possibilidade, é necessário olhar para a história.

 

A República brasileira foi proclamada em 15 de novembro de 1889, por meio de um golpe militar que derrubou a monarquia. A Constituição de 1891 estabeleceu a República Federativa e instituiu uma nova organização política para o país.

Entretanto, essa transformação não significou a participação igualitária de toda a população na vida política. Mulheres e pessoas analfabetas estavam excluídas do direito ao voto, e o sistema eleitoral, marcado pelo voto aberto e pela influência das oligarquias regionais, favorecia práticas de pressão sobre os eleitores e o coronelismo.

A República substituiu a monarquia, mas não estabeleceu uma democracia ampla como a que hoje compreendemos. A participação política era restrita, e o poder permanecia fortemente concentrado nas mãos de grupos influentes.

É importante lembrar que a Primeira República e a ditadura militar de 1964 a 1985 foram períodos históricos diferentes. Ainda assim, a história brasileira permite discutir como determinadas concepções de autoridade, hierarquia e concentração de poder podem reaparecer em discursos políticos de épocas distintas.

Uma pessoa ou um movimento que deseje valorizar uma ordem mais hierárquica poderia selecionar aspectos desse passado para exaltar a tradição e a autoridade, deixando em segundo plano as exclusões e desigualdades que também o caracterizaram.

Nesse cenário hipotético, a recuperação de um símbolo antigo poderia ser interpretada como uma referência a uma concepção de República diferente daquela consolidada pela Constituição de 1988. Isso não significa que o símbolo, isoladamente, prove uma intenção de restaurar a Constituição de 1891, mas que sua utilização pode ser analisada à luz das ideias políticas que acompanha.

A Constituição Federal de 1988 foi promulgada após o período da ditadura militar e tornou-se um marco do processo de redemocratização brasileira. Conhecida como Constituição Cidadã, ampliou a proteção dos direitos fundamentais e consolidou princípios essenciais à organização democrática do Estado.

Entre suas conquistas estão a soberania popular, os direitos e as garantias individuais e coletivas, o pluralismo político, a participação democrática, as eleições e a alternância de poder. Ela também estabelece limites à atuação do Estado e organiza instituições que devem exercer suas funções dentro da ordem constitucional.

Essas garantias não dependem da preferência pessoal de um governante. São fundamentos jurídicos que limitam o exercício do poder e protegem a sociedade contra decisões arbitrárias.

Desconsiderar esses princípios significaria ignorar um processo histórico de lutas, transformações e conquistas que ampliou a participação política e fortaleceu a proteção dos direitos no Brasil.

É por isso que a comparação entre as constituições de 1891 e 1988 vai além da diferença entre documentos históricos. Ela nos permite refletir sobre duas questões essenciais: quem participa da vida política e quais limites devem existir para quem governa?

A memória do passado pode ser utilizada de diferentes maneiras. Um símbolo antigo pode servir para preservar a história, despertar sentimentos de pertencimento ou representar uma tradição. Mas também pode adquirir significados políticos específicos quando associado a discursos que contestam a legitimidade das instituições vigentes.

Por isso, é importante observar o conjunto: o símbolo utilizado, as palavras que o acompanham, o contexto em que aparece e as atitudes políticas relacionadas a ele.

No caso hipotético aqui discutido, a combinação entre um brasão de uma República anterior à atual ordem constitucional e a reivindicação de uma autoridade não conferida pelas urnas levanta uma pergunta legítima: estaria sendo evocada uma fonte de legitimidade diferente daquela estabelecida pela Constituição de 1988?

Essa pergunta não equivale a afirmar que a intenção está comprovada. Significa reconhecer que símbolos políticos podem ser examinados criticamente e que a história oferece instrumentos para compreender os possíveis sentidos de sua utilização.

A Constituição de 1891 marcou uma ruptura com a monarquia e estabeleceu a República Federativa. A Constituição de 1988, por sua vez, consolidou a redemocratização e estabeleceu uma ordem constitucional comprometida com a soberania popular, os direitos fundamentais e a participação política.

São documentos de momentos históricos distintos, que expressam diferentes contextos e formas de organização do Estado brasileiro.

A questão central não é simplesmente saber se um símbolo antigo deve ou não ser utilizado. É compreender o significado que ele pode assumir quando inserido em determinado projeto político.

Se o poder emana do povo, como estabelece a Constituição de 1988, nenhuma reivindicação individual substitui os mecanismos democráticos de legitimação do poder.

Por isso, conhecer a história e compreender a Constituição não são tarefas restritas a juristas ou historiadores. São formas de exercer a cidadania, reconhecer as conquistas democráticas e refletir sobre os limites que devem existir para quem governa.

Afinal, uma democracia não se sustenta apenas na existência de eleições. Ela depende também do respeito às regras constitucionais, aos direitos fundamentais e à vontade popular expressa pelos meios legítimos.

O poder emana do povo. E compreender o significado dessa afirmação é também compreender por que a Constituição deve estar acima da vontade individual de quem pretende governar.

“Aprender não é apenas encontrar respostas; é descobrir quais perguntas merecem ser feitas.”

Juliana Camillo




sexta-feira, 16 de outubro de 2026

 

A Constituição

Nasci em 1981, vivi uma parte da minha infância durante a ditadura militar e era ainda muito pequena quando ela terminou. Atravessei a infância e a adolescência durante a consolidação da democracia brasileira. Nasci antes da Constituição de 1988, do ECA de 1990 e de muitas mudanças nas leis relacionadas à educação, à inclusão e a outras áreas.

O Brasil vivia sob uma ditadura militar, havia censura, restrições às liberdades políticas e perseguições a opositores do regime. O Estado restringia os direitos fundamentais dos cidadãos. Devido à mobilização popular e ao movimento Diretas Já, que reivindicava eleições diretas para presidente, o país avançou em direção à redemocratização. Em 1985, José Sarney assumiu a Presidência após a eleição indireta de Tancredo Neves, que adoeceu antes de tomar posse e faleceu naquele mesmo ano. Quando a ditadura terminou, não bastava ter um presidente civil; era necessário reconstruir as regras do país para que o poder não pudesse ser exercido arbitrariamente.

Enquanto eu começava minha infância, representantes eleitos participavam do processo constituinte e, em 5 de outubro de 1988, foi promulgada a Constituição Federal, ampliando as garantias de direitos e estabelecendo novas bases para a democracia. Ela ficou conhecida como Constituição Cidadã por dar ênfase aos direitos e às garantias fundamentais. É importante dizer que, no momento em que a Constituição foi elaborada, o país não vivia um momento fácil: havia divergências políticas e sociais. A democracia não exige que concordemos com tudo; exige que tenhamos regras comuns para conviver com nossas diferenças.

O artigo 1º fala da dignidade da pessoa humana e da cidadania e estabelece o Brasil como um Estado Democrático de Direito, reconhecendo também o pluralismo político. No artigo 2º, a Constituição estabelece três Poderes independentes e harmônicos entre si: Legislativo, Executivo e Judiciário.

O Poder Executivo: o presidente, os governadores e os prefeitos administram o Estado e os municípios, executando políticas públicas e exercendo as atribuições previstas em lei.

O Poder Legislativo: os deputados e vereadores, entre outras funções, elaboram leis, aprovam orçamentos e fiscalizam o Executivo.

O Poder Judiciário: julga conflitos, protege direitos e examina a compatibilidade de leis e atos do poder público com a Constituição.

Essa divisão procura evitar que a mesma autoridade concentre todas as funções e todo o poder. Os Poderes possuem competências próprias e mecanismos de controle recíproco, conhecidos como freios e contrapesos. Ou seja, em outras palavras, um presidente eleito não pode impedir o funcionamento do Congresso porque os parlamentares discordam dele ou de suas decisões, pois a Constituição não lhe dá esse poder. E isso vale para todos os Poderes, que devem respeitar os limites de suas atribuições. É justamente para impedir situações de autoritarismo que existem a Constituição, a fiscalização, a Justiça, o Legislativo e outras instituições de controle.

O artigo 5º reconhece direitos como a vida, a liberdade, a segurança e a propriedade, além de diversas outras garantias individuais e coletivas. O artigo 6º trata dos direitos sociais, como saúde, alimentação, trabalho, moradia, transporte, lazer e segurança.

A Constituição de 1988 introduziu a perspectiva da criança e do adolescente como sujeitos de direitos, e não apenas como pessoas que os adultos ou o Estado devem controlar ou tutelar. O artigo 227 determina que a família, a sociedade e o Estado assegurem, com absoluta prioridade, direitos como vida, saúde, educação, dignidade, respeito, liberdade e convivência familiar e comunitária. Dois anos após sua promulgação, foi elaborado o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que trata da proteção integral da criança e do adolescente. A criança passa a ser reconhecida como uma pessoa em desenvolvimento, com direitos próprios.

A Constituição também estabelece, em seu artigo 205, que a educação é um direito de todos e um dever do Estado e da família. O artigo 208 detalha os deveres do Estado, como a garantia da educação básica obrigatória dos 4 aos 17 anos, além da oferta de educação infantil em creches e pré-escolas para crianças de até 5 anos. Também prevê que o acesso ao ensino obrigatório e gratuito é um direito público subjetivo, ou seja, é um direito que pode ser exigido.

Depois vieram normas e leis que detalharam melhor o compromisso com a educação, como a LDB (Lei nº 9.394/1996), que organiza a educação nacional e estabelece suas diretrizes e bases; a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, de 2008, que fortaleceu a orientação para a participação dos estudantes com deficiência nas escolas comuns; e o Plano Nacional de Educação, de 2014, que estabeleceu metas e estratégias para a política educacional por um período de dez anos.

A ideia central é que a escola não deve ser um privilégio reservado a determinados grupos. A educação é um direito, e o poder público tem responsabilidades concretas para torná-la acessível.

A Constituição já previa o atendimento educacional especializado, preferencialmente na rede regular de ensino, no artigo 208, e, no artigo 227, estabelecia medidas relacionadas à integração social e à eliminação de barreiras. Posteriormente, outras leis foram sendo criadas para aprofundar esses direitos, como a Lei nº 10.098/2000, que estabeleceu normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade, e a Lei nº 13.146/2015, a Lei Brasileira de Inclusão, que consolidou direitos relacionados à igualdade, à acessibilidade, à participação social e à educação inclusiva. Além dessas, outras leis, decretos e emendas contribuem para a ampliação dos direitos sociais, da inclusão e da acessibilidade.

Também devemos salientar que, antes da Constituição de 1988, a legislação brasileira carregava fortes desigualdades entre homens e mulheres. A posição jurídica da mulher dentro da família havia sido historicamente marcada pela autoridade masculina. A Constituição, em seu artigo 5º, estabelece que homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações. O artigo 226 determina que os direitos e deveres da sociedade conjugal sejam exercidos igualmente e que o Estado crie mecanismos para coibir a violência no âmbito familiar.

Esses fundamentos ajudaram a sustentar leis posteriores, como a Lei Maria da Penha, de 2006, voltada à prevenção e ao enfrentamento da violência doméstica e familiar contra a mulher. A violência deixa, então, de ser tratada apenas como um assunto privado do casal e passa a ser reconhecida como uma questão que exige a atuação do Estado.

Isso não significa que a igualdade tenha sido alcançada ou que a mulher esteja totalmente protegida da violência, mas que as mulheres passaram a contar com bases constitucionais mais fortes para reivindicar seus direitos. A partir daí, muitas outras mudanças nas leis foram realizadas, e ainda há muito a melhorar.

A Constituição está presente na nossa vida cotidiana, mesmo sem que tenhamos consciência disso. Quando uma criança tem direito à educação, quando uma pessoa pode expressar suas ideias e crenças, quando alguém busca proteção contra o abuso de poder, quando exigimos um SUS de qualidade, remédios e vacinas que ajudam a garantir nossa saúde e nossa vida, quando temos segurança para ir e vir, quando exercemos nossos direitos à moradia e ao lazer, quando temos direito ao trabalho remunerado e não somos submetidos à escravidão, quando temos a possibilidade de ingressar em um concurso público e, atendidas as condições legais, adquirir estabilidade, ou quando usufruímos de férias, folgas e licença-maternidade, entre tantas outras coisas, não estamos falando de princípios abstratos, mas de garantias que devem orientar nossa vida cotidiana.

Por isso, e por tantas outras coisas contidas na Constituição e presentes em nossa vida cotidiana, que norteiam o bem-estar social e a harmonia entre os Poderes, devemos conhecer e proteger nossa Constituição. A estabilidade constitucional depende de mais do que um texto: depende de instituições que funcionem, de autoridades que respeitem suas competências, de cidadãos que conheçam seus direitos e de uma sociedade que possa fiscalizar o poder.

As instituições não são apenas prédios, cargos ou pessoas. Elas também são regras, procedimentos e limites que precisam continuar funcionando mesmo quando seus ocupantes mudam. Um presidente passa, um governador passa, um juiz pode ser substituído, mas a estrutura constitucional deve permanecer.

Por Juliana Camillo.



terça-feira, 30 de junho de 2026

 

E se…
E se tudo fosse areia?
E se o mar já não fosse o horizonte?
E se, até onde minha vista alcança, fosse tudo terra seca?
E se nela meus pés já não firmassem?

E se…
E se eu pudesse ver meu reflexo na areia?
E se ele já não fosse algo conhecido por mim?

E se…
E se ele fosse velho, enrugado, distorcido,
diferente de tudo que meus olhos já viram?
E se, nesse horizonte, só existisse a fumaça
do que um dia foi vida e água?

E se…
E se tudo que toquei virasse areia?
E se o vento levasse para longe tudo que era conhecido?
E se, entre fumaça e areia, eu fosse levada
ao desconhecido?

E se…
E se eu fosse a desconhecida na areia
distorcida, velha e enrugada?
E se eu me perdesse na areia
e no reflexo que já não reconheço?
E se o mar já não existisse
e meus pés não encontrassem mais firmeza?

Como buscar pelo mar
se o mar já não existe?
E se a desconhecida e eu
fôssemos a mesma pessoa?
E se eu não existisse?

Juliana C.



domingo, 28 de junho de 2026

 

"Existe um Universo ..."

 

Existe em mim um universo inteiro que não consigo conter.
Hora sou uma coisa, hora sou outra, e na maior parte do tempo… não sou nada.
Sou indefinida. Nunca havia me sentido assim: uniforme e vazia.
Carrego uma imensidão dentro do peito, buracos sem fundo, escuridão.
Abismos que não se pode conter.
Explosões silenciosas, sem tempo, sem lugar.

Pergunto-me se o vazio constrói algo,
se dele pode nascer alguma forma de vida
ou se eu mesma me tornei esse vazio.

Não tenho imagem ... e quando tento olhar para mim, sinto vergonha do que vejo, do que fui e do que me tornei.
O que fizeram de mim?
Ou o que fiz comigo?
Não sei.
Não sei para onde olhar,
não sei quais palavras dizer,
nem quais pensamentos pensar.

Sinto dor.
Dores que atravessam a carne,
como se meu corpo gritasse que ainda estou viva.
Até os pelos dos meus braços doem,
e eu respiro dor.

Um dia imaginei que respiraria maresia.
Hoje, o que sinto nas narinas é o odor da minha própria existência apodrecida, caminhando entre paredes que já não reconheço.
Sempre me perguntei se estava morta
e este era o meu túmulo.
Agora tenho certeza:
faz tempo que morri.
E cada pedaço de mim que se desprende
dói como se fosse a perda de algo que já não tinha vida,
mas ainda assim me pertence.

Vago pelo vazio da minha alma.
Procuro por mim,
mas só encontro mais vazio e mais escuridão.
Gostaria de me perguntar:
“Como cheguei aqui?”
Mas não posso,
porque me perdi de mim mesma,
e já não existe ninguém para me responder.

Quem eu fui já não existe.
Quem eu sou não sei.
Resta apenas a sensação constante de podridão e morte dentro de mim.
E assim vou vivendo... ou fingindo viver ...,
catando pedaços do que sobrou de mim pelo caminho.
Não há cores, não há sorrisos,
não há som.
A música que um dia me habitou
agora silencia.

Sinto muito por mim.
Gostaria de pedir perdão à menina sonhadora que acreditava na beleza da vida.
Mas o tempo do perdão passou,
e nada mais restou.

O amor morreu,
e com ele, morri também.
E morta, sigo caminhando entre os vivos,
carregando dentro de mim a imensidão dos vazios,
o silêncio da ausência,
a sombra da vida que um dia existiu
e se desfez.

Juliana C



Sol de Primavera 
Meu sol de primavera... 
Luz que irradia afeto... 
Como esquecer da luz que entra em minha janela 
E aquece tudo que toca? 
Como esquecer você? 
Como esquecer você? 
 Impossível... 
Você era dúbia ... 
Não por ser incerta ou duvidosa, 
 Mas porque sobre você existem várias interpretações, 
 Um sol de várias faces, 
 Mas eu amava todas elas. 
Era doce, meiga e gentil, 
A doçura em pessoa, 
Mas podia ser amarga também 
E grossa quando não estava bem. 
Era cuidadosa, afetuosa, 
Cuidava daqueles à sua volta, 
Mas por muitas vezes exigia cuidados e afeto também. 
Era prevenida, cautelosa, 
 Mas também era imprudente. 
Era a brisa leve, 
Mas também era a ventania. 
Era o mar calmo e, ao mesmo tempo, 
Conseguia ser a tempestade em alto-mar. 
Era o dia de sol e a chuva brava de verão. 
Era o céu aberto e o céu com trovões. 
Era a alegria e o choro também. 
Era o dia e a noite. Era muitas em uma só, 
 E quem não é, não é mesmo? 
Só os ditos normais escondem essa dubiedade, 
Você não, você nunca escondeu, 
Era muitas e sabia disso, 
 E em todas as faces havia intensidade, amor, afeto, loucura, paixão, 
Havia a Larissa. 
Você era grande, grande demais pra esse mundo pequeno, você viveu intensamente tudo que se propôs a viver. 
Como Thoreau: “Fui para os bosques viver de livre vontade. 
Para sugar todo o tutano da vida. 
Para aniquilar tudo que não era vida e, para quando morrer, não descobrir que não vivi.”
Você viveu e como viveu, Realizou coisas que nunca imaginou realizar 
E enfrentou a luta pela vida de uma forma inimaginável, 
Com uma coragem invejável, 
Foi firme e forte como nunca havia sido ainda, foi grande. 
Não quero pensar que perdeu, Porque você foi grande, 
Mas sei que nós perdemos, Perdemos você. 
E acho que você iria rir disso, Você se foi  no dia da mentira, 
Um dia que você ligava e falava coisas absurdas 
E no fim ria e falava que era o dia da mentira 
E que era tudo brincadeira, 
E eu estou aqui esperando a sua ligação 
Pra falar que foi tudo brincadeira e que você ainda está aqui. 
Que vai voltar 
Mas não vai, não é Sol de primavera, luz que irradia, 
Que aquece, que ilumina Sorriso que toca como um afago no coração 
Como viver sem você nesse mundo? 
Como olhar a vida e as pessoas, as coisas acontecendo, 
E saber que você não está aqui? 
Pra quem eu vou ligar 
E falar as coisas e te chamar de “Coisa”
E ouvir você me chamar também? 
Hoje só o que existe é vazio 
E silêncio .... 
Onde habitava você, risadas e conversas, existe o silêncio do universo, 
Um silêncio que dói, 
Que fere sem dizer nada, 
Porque você não está mais aqui. 
Nos encontraremos em breve, 
Sol de primavera 
Por hora quero acreditar que você está aqui 
Nos dias de sol e nos dias de chuva, 
Nas tempestades e no arco-íris e em todos os dias, 
Junto a mim e àqueles que tanto te amam. 
E que você tanto amou. Para sempre, minha Coisa.
Te vejo em breve ...

Juliana C

quinta-feira, 27 de julho de 2023

 Pensamentos !

Então Elias saiu de lá e encontrou Eliseu, filho de Safate. Ele estava arando com doze parelhas de bois e conduzindo a décima segunda parelha. Elias o alcançou e lançou sua capa sobre ele.

Eliseu deixou os bois e correu atrás de Elias. "Deixa-me dar um beijo de despedida em meu pai e minha mãe", disse, "e então irei contigo."
"Vá e volte", respondeu Elias; "lembre-se do que fiz a você."

E Eliseu voltou, apanhou a sua parelha de bois e os matou. Queimou o equipamento de arar para cozinhar a carne e a deu ao povo, e eles comeram. Depois partiu com Elias, tornando-se o seu auxiliar.

1 Reis 19: 19, 20, 21

O poder da decisão

Elias chama a Elizeu, ele tinha a escolha de dizer não e continuar a viver sua vida da forma que vivia, ele era livre para escolher se sim ou não “livre arbítrio” e ele escolhe por mudar de vida, romper com o que até ali ele conhecia e o poder de decisão é o que rompe barreiras e leva Elizeu para a próxima fase.

Ele mata os bois, como quem diz: Nunca mais eu volto aqui, para fazer o que faia antes.

Ele beija seu pai e sua mãe, como quem diz: Nunca mais eu pego em um arado, nunca mais eu voltarei a vida antiga pois essa vida não me cabe mais. E ele o faz pois era isso que o prendia a vida a antiga, abandona tudo que era antigo e não cabia mais, não fazia mais parte do mundo de Elizeu, não o vestia, não o representava mais. Elizeu assumi a partir dali uma aliança com o compromisso firmada, pois ele já se despediu e se desfez de tudo que tinha ou seja depois da decisão e da aliança feita com a decisão não há como voltar a vida antiga, não há mais como voltar atrás.

Depois da decisão, da aliança com ela e da resistência aos males ao longo do caminho, vem a sobrevivência a hipocrisia, ao comportamento de não querer vender para aos outros um comportamento que não reflete a realidade do que vivo. Com a leitura da vida de Elizeu aprendemos que devemos: Tomar uma decisão, abandonar a nossa vida antiga, jogar fora queimar se desfazer de tudo que nos prende a uma vida velha, incluindo pessoas, coisas, bens, modo de vida, tudo o que faz parte da vida antiga e nos aliançar com uma vida nova, assumir com essa decisão um compromisso, devemos ser resistentes, pois desafios virão, magoas, dores, perdas que tentarão lhe paralisar ao longo do caminho, seja resistente. E devemos tratar nossas fraquezas e defeitos ocultos para não vendermos uma imagem distorcida e equivocada de nós mesmos, uma aparência de árvore frutífera, porém, sem frutos. Devemos de fato sermos árvores fruteiras. Tome uma decisão, aliance-se com ela, seja resistente e fuja aparência. Assim como Elizeu, você terá uma vida solidária, mas satisfatória. Poucos estão a correr a mesma corrida que você e ao longo dela estará só, mas será vitorioso e virtuoso em um mundo que em que a aparência de Ser vale mais que o Ser, Ser de verdade é mais que uma conquista.

Ande sozinho, mas não vida de aparência, tenha aliança e decida viver com Deus e com seus propósitos!! SEJA e não APARENTE SER. .......                                                         J.C






domingo, 23 de julho de 2023

     Andei pensando por esses dias, afinal, "Quem sou eu"? Acredito que essa é a pergunta que tem rondado meus dias, quem é a pessoa trajando como vestimenta esse corpo? Quem olha através desses olhos? Quem sussurra as palavras que como flechas sai dessa boca? Quem usa esses pés  que pouco caminham? Quem? Quem habita esse corpo? Será possível já ter habitado em outros corpos? Será que já derramou lágrimas por outros olhos? Sorrisos e beijos por outros lábios?.

    Ouso muito falar de quem sou, de como sou, do que gosto ou não gosto, ouso falar dos meus defeitos e das poucas qualidades que possuo, sou medida e desmedida todos os dias, tem dias que a medida é grande e generosa em outros muitos tantos a medida é menor que um grão de areia da praia. Tenho erros apontados a mim como armas mortais em meu peito, cometidos ou não, não importa. Verdades ou não, também não importam, pois já fui feita, formada e criada a imagem e medida de mim mesma por terceiros e eu, desconheço e pergunto a essa imagem criada, "quem sou eu"? Sou a pessoa moldada a imagem de terceiros? sou mais? Sou menos? Quem sou, ou o que sou?

    A pergunta ressoa nos quatro cantos desse corpo quase sem vida "Quem habita por trás desses olhos? Todas as imagens que possuo de mim mesmas estavam sobre a areia e o mar as levou tão fundo que não as vejo mais, "mulher", "mãe", "esposa", "amiga", "humana", e já não sobrou nada em que possa me apoiar e me reconhecer, me trazer de volta e então vago pelo universo, como se pela atmosfera fosse levada sem algo em que possa me apoiar e então a pergunta ressoa na vastidão do universo "Quem olha através desses olhos"? "Quem habita esse corpo"? e então mergulho nos braços desconhecido do universo em um dançar sem fim, em uma dança infindável de perguntas sem respostas. (...)


Juliana Camillo