“Começo este diário para aprender a me
enxergar de novo.”
Se isso ainda me for possível
Existe em mim um universo
inteiro que não consigo conter.
Hora sou uma coisa, hora sou outra, e na maior parte do tempo… não sou nada.
Sou indefinida. Nunca havia me sentido assim: uniforme e vazia.
Carrego uma imensidão dentro do peito, buracos sem fundo, escuridão.
Abismos que não se pode conter.
Explosões silenciosas, sem tempo, sem lugar.
Pergunto-me se o vazio constrói
algo,
se dele pode nascer alguma forma de vida
ou se eu mesma me tornei esse vazio.
Não tenho imagem ... e quando
tento olhar para mim, sinto vergonha do que vejo, do que fui e do que me
tornei.
O que fizeram de mim?
Ou o que fiz comigo?
Não sei.
Não sei para onde olhar,
não sei quais palavras dizer,
nem quais pensamentos pensar.
Sinto dor.
Dores que atravessam a carne,
como se meu corpo gritasse que ainda estou viva.
Até os pelos dos meus braços doem,
e eu respiro dor.
Um dia imaginei que respiraria
maresia.
Hoje, o que sinto nas narinas é o odor da minha própria existência apodrecida,
caminhando entre paredes que já não reconheço.
Sempre me perguntei se estava morta
e este era o meu túmulo.
Agora tenho certeza:
faz tempo que morri.
E cada pedaço de mim que se desprende
dói como se fosse a perda de algo que já não tinha vida,
mas ainda assim me pertence.
Vago pelo vazio da minha alma.
Procuro por mim,
mas só encontro mais vazio e mais escuridão.
Gostaria de me perguntar:
“Como cheguei aqui?”
Mas não posso,
porque me perdi de mim mesma,
e já não existe ninguém para me responder.
Quem eu fui já não existe.
Quem eu sou não sei.
Resta apenas a sensação constante de podridão e morte dentro de mim.
E assim vou vivendo... ou fingindo viver ...,
catando pedaços do que sobrou de mim pelo caminho.
Não há cores, não há sorrisos,
não há som.
A música que um dia me habitou
agora silencia.
Sinto muito por mim.
Gostaria de pedir perdão à menina sonhadora que acreditava na beleza da vida.
Mas o tempo do perdão passou,
e nada mais restou.
O amor morreu,
e com ele, morri também.
E morta, sigo caminhando entre os vivos,
carregando dentro de mim a imensidão dos vazios,
o silêncio da ausência,
a sombra da vida que um dia existiu
e se desfez.
Juliana C

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